Comportamento adjuntivo (Wetherington, 1982)

respondentes, operantes e adjuntivos?


Wetherington, C. L. (1982). Is adjunctive behavior a third class of behavior? Neuroscience and Biobehavioral Reviews, 6 (3), 329–350. http://doi.org/10.1016/0149-7634(82)90045-8


Revisa a noção de que o comportamento induzido por esquema é anômalo no escopo da teoria do comportamento e se uma tricotomia operante-respondente-adjuntivo é necessária. Argumenta que ele nem é único e nem anômalo como frequentemente é considerado.

A “polidpsia induzida por esquema” (schedule-induced polydipsia, SIP) foi originalmente documentada por Falk (1961) como uma possível ferramenta para o estudo de funções renais. Falk (1961) reportou, com 14 ratos, um consumo excessivo de água induzido por um esquema de intervalo variável. Durante um período de 24 horas com livre acesso à água e comida (pré-experimental), os ratos consumiam em média 26.96 ml. Em seguida, os ratos eram privados de comida por 20.83 horas com livre acesso à agua; consumiam, então, em média 0.95 ml. Por fim, durante as 3.17 horas de exposição a um esquema VI-1 min (mínimo 3 segundos, máximo 2 minutos) trabalhando por comida e com livre acesso à água, os ratos consumiam em média 92.51 ml, isto é, durante o procedimento havia um consumo em média 3.43 vezes maior do que durante o período pré-experimental. Adicionalmente, Falk (1961) afirma que o procedimento nunca havia falhado em produzir comparável consumo em seu laboratório e que os resultados tornavam-se mais impressionantes ao se considerar que o esperado com ratos privados de comida até então era uma ligeira redução no consumo de água.

Tal fenômeno comportamental, posteriormente, foi proposto como um comportamento básico distinto dos operantes e dos respondentes (Falk, 1966), sugerindo-se que fossem chamados de “comportamentos adjuntivos” aqueles a) que ocorrem adjuntos a um esquema de reforçamento; b) que não estão diretamente envolvidos com ou mantidos pela contingência de reforçamento mas; c) possuem propriedades reforçadoras. Propriedades reforçadoras tem sido demonstradas quando a água (ou outro alvo de consumo excessivo) é programada como consequência em um esquema concorrente ao esquema associado à comida (ou outra consequência diferente daquela alvo de consumo excessivo).

Comportamentos adjuntivos (polidpsia e outros) induzidos pela apresentação intermitente de comida tem sido demonstrados com humanos e com animais não humanos. Ainda assim, foi proposto que uma resposta dependente de comida não é necessária para produzir o comportamento (Falk, 1967).

Comportamento adjuntivo como comportamento operante

Comportamento Adjuntivo contempla a definição de Comportamento Operante?

Com base em uma definição exaustiva, na qual todo comportamento é operante até que se demonstre que seja um respondente, propõe que redefina-se operante e respondente caso adjuntivo não seja nem operante nem respondente. Diferentemente, caso adjuntivo seja operante, propõe que demonstre-se que 1) é sensível às consequências (Lei do Condicionamento de Tipo R); 2) possui variáveis de controle semelhantes àquelas do operante 3) por não possuir consequências explicitamente programadas, deve necessariamente ser mantido por reforçamento de maneira acidental/superticiosa.

Comportamento Adjuntivo é sensível às consequências?

Revisa estudos nos quais o consumo de água era seguido de atrasos na comida contingentes ao comportamento de consumo (lamber água), apresentação de comida extra contingente ao comportamento de consumo e comida extra contingente ao comportamento de não consumir. Conclui que os efeitos de tais contingências sobre o comportamento de consumo excessivo foi fraco. Entretanto, conclui que estudos com choques contingentes ao comportamento de consumo suprimiram acentuadamente o consumo excessivo, embora com choques muito leves tenha havido um favorecimento do consumo excessivo, algo incompatível com contingências operantes utilizando estímulos aversivos.

Controle de Comportamento Adjuntivo por variáveis afetando Comportamento Operante

Apresenta literatura demonstrando que variáveis que afetam o comportamento operante também afetam o comportamento adjuntivo de maneira semelhante. Por exemplo, comportamento adjuntivo respeita a Lei da Correspondência (Matching Law), demonstra contraste comportamental e permite generalização de estímulos.

Comportamento Adjuntivo é superticiosamente mantido?

Considera que comportamento adjuntivo como superticiosamente mantido não é uma alternativa convincente porque: 1) comportamento superticioso é efêmero (muda de topografia), o consumo excessivo é estável 2) comportamento superticioso depende de modelos baseados em contiguidade, o consumo excessivo ocorre mesmo quando a contiguidade entre comportamento de consumo e comida é explicitamente evitada 3) superticiosos ocorrem antes da apresentação de comida, o comportamento de consumo excessivo ocorre, frequentemente, depois da apresentação de comida 4) a noção de comportamento superticioso em si mesma tem sido questionada e interpretações alternativas mais plausíveis tem surgido.

Conclui que o comportamento adjuntivo, embora semelhante ao operante, não pode ser mantido superticiosamente.

Descrições motivacionais de comportamento adjuntivo

Mas se não é superticiosamente, o que poderia ser então? Com base em um conceito de “drive”, um estado do organismo que regula a força de classes ou conjuntos de comportamento, e naquela definição exaustiva de operante (tudo é operante até que se prove eliciador), sugere que o consumo excessivo é auto-reforçado, isto é, que a consequência mantenedora surge da própria execução do comportamento. Sugere que a propriedade auto-reforçadora do comportamento adjuntivo depende do estado de fome do organismo (no caso do SIP), pois o consumo excessivo tem demonstrado variar de acordo com a apresentação de comida.

Comportamento adjuntivo como comportamento respondente

Considera se o comportamento adjuntivo pode ser considerado um reflexo condicional ou um reflexo incondicional. Comportamentos adjuntivos poderiam ser respondentes: 1) pois ocorrem de maneira estável e 2) imediatamente após o comportamento de consumo de comida. Entretanto há evidências de comportamentos adjuntivos antecedendo o comportamento de consumo.

Refuta a noção de respondentes apresentada por Falk (1971) na qual: 1) UR eliciadas por um US ocorrem prontamente (a SIP demora muitas sessões); 2) respostas eliciadas são relativamente invariáveis, não sendo tão afetas por condições ambientais (a SIP seria) e; 3) respostas eliciadas ocorrem imediatamente após um estímulo eliciador (o comportamento de consumo excessivo pode ocorrer depois).

Objeções aos adjuntivos como respondentes

Refuta a noção de que a apresentação repetida do US implica em uma UR invariável; não faz sentido, portanto, usar tal noção como base para desqualificar adjuntivos como respondentes.

  • Apresenta estudos sobre sensitização e habituação demonstrando que a apresentação repetida do US produz mudanças na UR.
  • Apresenta dois critérios de condicionamento temporal: 1) quando a CR tende a ocorrer pouco antes da apresentação do US e 2) se omitido o US ou alterado o intervalo entre US’s, a CR tende a ocorrer durante ou pouco após o tempo no qual o US deveria ter sido apresentado. Especula que o comportamento adjuntivo pode estar ocorrendo por meio de pareamento temporal (pois há casos de SIP pré-comida), mas geralmente falha de acordo com o primeiro critério. Não se pronuncia sobre o segundo critério, pois não apresenta estudos sobre comportamento adjuntivo com tal procedimento de omissão.
  • Apresenta fartas evidências nas quais há mudanças topográficas na UR e inclusive geração de novas UR’s ao longo de repetidas apresentações do US.
  • Apresenta a somação temporal de subliminares (summation) e sugere que tal fenômeno pode cumprir um papel na ocorrência de comportamentos adjuntivos tendo como base o desenvolvimento gradual da UR e a apresentação repetida do US. Refuta a noção de que respondentes não são afetados pelo contexto ambiental; novamente, não faz sentido usar tal noção como base para desqualificar adjuntivos como respondentes.
  • Uma propriedade de reflexos como piscar, sobresalto do joelho, salivação e flexão da perna é que eles não são reflexos orientados a nenhum objeto. Entretanto muitos reflexos são orientados como o de mastigação, de lançamento de língua do sapo, o agarrar de acasalamento do sapo macho, a orientação de cabeça e sucção de humanos neonatais.
  • A UR de reflexos orientados tem demonstrado variar de acordo com o contexto diante de um mesmo US. Por exemplo, com ratos, choques podem eliciar retração muscular se sozinhos ou interação agonística típica de defesa se na presença de outro rato.
  • A presença de estimulação difusa (estados internos ou externos), tais como iluminação, sons de fundo e ambiente, interfere na forma da UR e podem determinar, dentre um número de opções alternativas, qual UR será eliciada. Por exemplo, ao ser estimulado na perna, um sapo pula se estiver em cima de um pedra, mas nada rapidamente se estiver na água. Se um bebê está faminto, o threshold de uma resposta de orientação da cabeça é reduzido (permitindo resposta mais fortes com estimulação mais fraca); mas se o bebê está defecando, urinando, dormindo ou bocejando o threshold é elevado.
  • A estimulação discreta pode mudar a UR, por exemplo, com humanos neonatais, eliciar um forte reflexo de flexão das pernas encurtava a UR de orientação da cabeça.
  • Sugere que o comportamento de consumo excessível pode decorrer de potenciação de outros reflexos; considerando o objeto alvo de consumo excessível como US, o threshold de eliciação seria reduzido e a força do US aumentada por meio da apresentação intermitente de comida.

Refuta a noção na qual um UR sempre ocorre imediatamente após um US; novamente, não faz sentido usar tal noção como base para desqualificar adjuntivos como respondentes.

  • SIP pode ocorrer mesmo restringindo a disponibilidade da água a janelas temporais dentro do esquema. Esses resultados tem sido explicados por meio de teorias motivacionais semelhantes ao drive (Parte 2), mas tal explicação pode ser reformulada em termos de potenciação (como previamente apresentado).

Comportamento adjuntivo funciona como um respondente?

Descreve estudos com evidências de que o comportamento adjuntivo pode ser condicionado classicamente. Argumenta que a existência de respostas que podem ser categorizadas como respondentes por outros critérios, mas não são condicionáveis classicamente, indica que mesmo a impossibilidade de tal condicionamento não excluiria necessariamente comportamentos adjuntivos da categoria dos respondentes.

Variações no US produzem variações previsíveis na UR. Dessa forma, adjuntivos deveriam produzir variações previsíveis comparáveis.

Categorias comportamentais X Procedimentos comportamentais

Refuta os 7 pontos elencados por Falk (1971) que justificariam criar uma nova categoria de comportamentos (Parte IV). Dessa forma, rejeita a tricotomia respondente-operante-adjuntivo e sugere seu imediato abandono.

Demonstra que comportamento adjuntivo possui aspectos operantes, respondentes e não associativos (nem operantes, nem respondentes). Admite que a atual classificação respondente-operante tem sofrido reinterpretações por conta, por exemplo, do fenômeno da auto-modelagem. Sugere, então, que ao invés de procurar compor categorias universais, uma melhor estratégia seria procurar identificar as condições nas quais o fenômeno em questão ocorre. Sugere, ao optar por essa estratégia, postergar a classificação de adjuntivo como operante ou como respondente.

Referências

Falk, J. L. (1961). Production of polydipsia in normal rats by an intermittent food schedule. Science, 133(3447), 195–196. http://doi.org/10.1126/science.133.3447.195

Falk, J. L. (1966). The motivational properties of schedule-induced polydipsia1. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 9(1), 19–25. http://doi.org/10.1901/jeab.1966.9-19

Falk, J. L. (1971). The nature and determinants of adjunctive behavior. Physiology & Behavior, 6(5), 577–588. http://doi.org/10.1016/0031-9384(71)90209-5

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Rafael Picanço, 18 de Março de 2016.