É possível uma subjetividade que não se preste ao conhecimento?

subjetividade, conhecimento e segredos


Trata-se de uma versão atualizada, não revisada por pares, de um ensaio apresentado como parte dos requisitos de avaliação da disciplina Subjetividade e Comportamento ministrada pelo Prof. Dr. Emmanuel Zagury Tourinho, em 2008, ainda na época da minha graduação em Psicologia. Boa leitura!

Conhecimento

Tourinho (2006), ao discorrer sobre as bases históricas para compreensão da forma como as pessoas encaram a subjetividade, elencando dicotomias psicológicas clássicas, sinaliza a origem da dicotomia objetivo-subjetivo no campo do problema do conhecimento, especificamente sobre as realizações científicas envolvidas na produção de um conhecimento efetivo e seguro:

“Tanto no empirismo como no racionalismo essas condições dizem respeito a faculdades do indivíduo particular, não a processos sociais de construção do conhecimento. É a razão (racionalismo), enquanto faculdade da alma, ou a experiência sensível articulada (empirismo), que conduz ao conhecimento verdadeiro” (Tourinho, 2006, pp. 66-67)

A experiência articulada ou a razão, diferentemente do que era sustentado pelo empirismo ou racionalismo em questão, tanto não explicavam a ocorrência do conhecimento por meio de tal circularidade como também restringia à ordem do individual sua validade e segurança. Não é por ter sido individualmente produzido, seja lá por meio da “razão”, dos “sentidos” ou não, que o conhecimento torna-se efetivo e seguro, mas sim porque as contingências de reforçamento atuaram diferenciando ou modelando o comportamento do sujeito ou sujeitos do conhecimento ao longo dos tempos (Skinner, 1974).

Conhecimento pode ser considerado como uma “[…] probabilidade, de o indivíduo [como um todo] agir no mundo de modos produtivos […]” (Tourinho, 2003, p. 34, colchetes meus). Conhecimento implica mudanças no organismo que conhece. Skinner (1974), embora considere válida a noção de “memória” como mudanças no organismo correlatas às interações com o ambiente, afasta qualquer possibilidade de representações armazenadas pelo ou no organismo.

Tomando a noção apresentada no parágrafo anterior como base e as acepções 1.2, 2.1, 5, 10, 11 e 18 do vocábulo “conhecimento” no dicionário Houaiss (2002), as seguintes acepções serão utilizadas por meio do termo “conhecimento”: a) de um organismo, um estado de responsividade efetiva e segura ao mundo; b) de um discurso, conjunto ou consenso relativo àquela responsividade.

Conhecer como e Conhecer sobre

“O conhecimento que permite a uma pessoa descrever contingências é muito diferente do conhecimento identificado com o comportamento modelado pelas contingências. Nenhuma forma implica a outra”. (Skinner 1974, p. 120). O comportamento determinado por exposição direta às contingências de reforço é reconhecido como de um tipo diferenciado daquele determinado pelo seguimento de regra.

Isto fica mais evidente ao longo do ensino-aprendizado de novas habilidades. Imagine o quão curta seria a vida se o aprendizado de cada instrumento no cotidiano ocorresse sem qualquer instrução. Mais curta ainda seria se fossem considerados os riscos envolvidos; como quando se aprende a cozinhar num fogão, ou se aprende a chegar em um lugar desconhecido e perigoso sem as referências apropriadas ou o endereço propriamente dito. Aqueles dois tipos de conhecimento reconhecidos por Skinner (1974), serão tratados a seguir como conhecer como e conhecer sobre. Eles fazem alusão às acepções previamente apresentadas, respectivamente.

Sentimentos

Sentimento, assim como conhecimento, também provém de um verbo; sentir, que é uma ação. Uma ação por si só, no entanto, não define uma relação comportamental conforme a abordagem relacional proposta por Tourinho (2006). Portanto, conclui-se que uma ação não descreve um sentimento. Para tanto, é necessário que seja evidente alguma relação de controle com consequências ou antecedentes. Ao reunir unidades analíticas suficientes para a descrição de uma contingência, uma relação comportamental torna-se evidente.

Mas essa relação possui peculiaridades no contexto da subjetividade. Além de eventos públicos, eventos privados também devem exercer função de estímulo. No caso dos sentimentos, deve haver também, necessariamente, um componente verbal, um nível de determinação cultural naquela relação. Falamos, então, de um sentimento de amor, inveja, ira, e assim por diante, sob controle discriminativo de certas condições ambientais privadas (alterações anátomo-fisiológicas) e públicas (i.e., eventos do mundo físico e social).

É importante que não se confunda uma resposta verbal sob controle de estímulos privados ou públicos, com descrições sobre sentimentos. Em outras palavras, não se deve confundir “Eu amo…” com as descrições das contingências que produzem, dentre outros produtos, respostas verbais como essa.

Segredos

Com certeza, conhecer sobre o sentir não é necessário e nem suficiente para se conhecer como sentir e visse-versa. Mas haveria uma cultura na qual o como sentir exigisse necesseriamente um desconhecimento sobre o sentir? Em outras palavras, haveria uma cultura na qual segredos, a ignorância ou simplesmente o silêncio sobre o sentimento fossem intrínsicos ao como sentir? O excerto abaixo fornece conteúdo para uma reflexão inicial:

“[…] Sobre o amor. Numa crônica maravilhosa sobre o amor, Rubem Alves, cita vários autores, entre eles: Kierkegaard, Santo Agostinho e Drummond. Kierkergaard, segundo Rubem, achava um absurdo se pedir aos amantes explicações para o seu próprio amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Agora se fosse pedir para falar sobre, tudo bem. Mas falar sobre não é explicar. Falar é fácil. Explicar é que é fogo! Parece que amor só pode existir enquanto felicidade a partir da ignorância das suas razões. Santo Agostinho questiona: ‘Que é que eu amo quando amo a Deus?’ (etcha perguntinha, hein?). Imaginem se um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: ‘Que é que eu amo quando te amo?’. Seria talvez, o fim de uma estória de amor. Pois essa pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada, o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse: ‘O que amamos é sempre um símbolo’”. (Cyber blue, 2008).

De fato, o conteúdo de obras literárias, como aquelas citadas no excerto anterior, parece indicar que sim, pode haver uma cultura do segredo fazendo parte do cotidiano de cada um. E que tipos de problemas emergem a partir dessa noção para os profissionais que lidam com esse tipo de comportamento? Finaliza-se enumerando algumas possíveis questões:

  1. Visto que analisar comportamento é descrevê-lo em termos funcionais, e isso constitui um conhecimento sobre o comportamento, como exercer a ética quando da atuação profissional com o público pautada em análises desse tipo?
  2. Cognições e Emoções podem receber a mesma problematização?
  3. A maneira como a ciência era tratada, descrita em termos do método, e as mudanças realizadas pelo modelo de ciência proposto por Skinner (ver Dittrich, 2004), podem ser tomadas como indicativos de uma preocupação com as implicações de uma cultura de segredos na atividade científica?

Referências

Cyber blue (2008, 18 de junho). Sobre a paixão. Acesso em 23 de junho de 2018, em http://cyberbluestar.blogspot.com/2008/06/sobre-paixo.html

Dittrich, A. (2004). Behaviorismo Radical, ética e política: aspectos teóricos do compromisso social. Tese de doutorado. Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, São Paulo.

Houaiss, A. (2002) Dicionário Eletrônico Houaiss da língua portuguesa 1.0.5. (CD-ROM). Acesso em 27 de junho de 2008. O conteúdo do programa corresponde à edição integral do Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Objetiva Ltda.

Skinner (1974). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix

Tourinho, E. Z. (1994). A noção pragmatista de conhecimento e a noção skinneriana de conhecimento. Acta Comportamentalia, 2, 219-232

Tourinho, E. Z. (2003). A produção de conhecimento em psicologia. Psicologia Ciência e Profissão, 23 (2), 30-41

Tourinho, E. Z. (2006). Subjetividade e Relações Comportamentais. Tese de doutorado. Departamento de Psicologia Experimental, Universidade Federal do Pará. Belém, Pará.

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Rafael Picanço, 2 de Julho de 2015.